Da inovação à produtividade: os desafios da transformação tecnológica na indústria
Se há alguns anos uma das principais questões da indústria era quais tecnologias adotar, hoje o desafio está em transformá-las em resultados concretos.
Essa foi uma das discussões do painel “A indústria eletroeletrônica diante de uma nova agenda de competitividade”, promovido pela FIEE – Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade.
Um setor entre o crescimento e os desafios de produtividade
Os indicadores ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo a Abinee, a indústria eletroeletrônica faturou R$ 270,8 bilhões em 2025, enquanto a produção física recuou 1,4% em relação ao ano anterior. O setor encerrou o período com 288 mil trabalhadores e investimentos de R$ 4,7 bilhões, com projeção de faturamento de R$ 289 bilhões em 2026.
O contraste entre os indicadores reforça a importância de discutir os fatores que influenciam o desempenho industrial, entre eles a capacidade de incorporar novas tecnologias e ampliar a eficiência das operações.
“Hoje, o desafio está na capacidade de integrar energia, infraestrutura, digitalização, inteligência artificial e inovação para gerar produtividade e atrair investimentos”, destacou Silla Motta, especialista no setor elétrico, mediadora do painel e curadora do Congresso FIEE.
A inteligência artificial avança nas fábricas
A inteligência artificial já permite antecipar falhas, planejar manutenções e reduzir perdas nos processos industriais. Sua adoção também cresceu significativamente. Segundo a Pintec Semestral do IBGE, o percentual de empresas industriais que utilizam algum tipo de IA passou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. O levantamento considera empresas das indústrias extrativas e de transformação com 100 ou mais pessoas ocupadas.
Apesar do avanço, a adoção dessas ferramentas não garante, isoladamente, maior produtividade. “A tecnologia existe, e hoje ela já não é mais uma barreira para a gente evoluir dentro da indústria. Mas ela por si só não vai fazer a transformação”, afirmou Patrícia Cavalcanti, vice-presidente de Digital Energy & Power Products para a América do Sul na Schneider Electric.
Segundo a executiva, os resultados dependem também da organização dos processos e da capacitação das equipes para utilizar as tecnologias de forma eficiente.
Qualificação profissional: um desafio crescente
A dificuldade de encontrar profissionais qualificados acompanha essa transformação. Na Sondagem Industrial da CNI, a falta de trabalhadores qualificados passou de aproximadamente 5% das menções entre 2015 e 2020 para 23,3% no segundo trimestre de 2025, o maior percentual da série. Entre as pequenas empresas, o índice chegou a 28,4%, ocupando a segunda posição entre os principais problemas apontados, atrás apenas da carga tributária.
O Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, do Observatório Nacional da Indústria (ONI/CNI), estima que o Brasil precisará qualificar cerca de 14 milhões de trabalhadores em áreas estratégicas para a indústria no período, incluindo 2,3 milhões em formação inicial e 11,8 milhões em treinamento e desenvolvimento.
Transformar desafios em oportunidades
Para Marcelo Machado, diretor da área de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD) da Abinee, a formação de profissionais, o desenvolvimento de tecnologias próprias e os ganhos de produtividade são fundamentais para ampliar a competitividade do setor. “Quanto mais complexo o ambiente, maiores são as oportunidades”, afirmou.
O desafio, portanto, não se limita a acompanhar a evolução tecnológica, mas envolve preparar as empresas e os profissionais para transformar inovação em eficiência e novas oportunidades de desenvolvimento.
Essas questões estarão entre os temas da FIEE, programada para 14 a 17 de setembro de 2027, no São Paulo Expo, que também receberá a 2ª edição do Congresso FIEE.
