Energia deixa de ser apenas custo e ganha papel estratégico na indústria
Pense em uma fábrica que pretende modernizar seus processos ou em uma cidade que planeja substituir sua frota de ônibus a diesel por veículos elétricos. Nos dois casos, o desafio vai além da adoção de novas tecnologias: é preciso garantir energia e infraestrutura adequadas para viabilizar essas mudanças.
Essa foi uma das questões discutidas no painel “A indústria eletroeletrônica diante de uma nova agenda de competitividade”, promovido pela FIEE – Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia, Automação e Conectividade.
A energia ganha papel estratégico
“A energia hoje é um diferencial competitivo, não é só mais um custo”, afirmou Fernando Oliveira Silveira, diretor comercial da GreenYellow. Segundo ele, o uso de dados e o planejamento dos investimentos em eficiência energética permitem identificar prioridades, reduzir custos e aumentar a previsibilidade das operações industriais.
Os indicadores mostram a importância dessa gestão. Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2026, da EPE, a indústria respondeu por 36,1% do consumo final de energia elétrica do Brasil em 2025. Uma sondagem da CNI, divulgada em agosto de 2026, com cerca de 1,5 mil empresas, mostrou que 67% das indústrias sentiram o impacto do aumento da energia elétrica nos custos de produção.
Apesar dessa pressão sobre os custos, apenas 13% das empresas citaram investimentos em autogeração e eficiência energética nos processos fabris na mesma pesquisa. O dado reforça a importância de ampliar o planejamento energético e avaliar alternativas para tornar as operações mais eficientes.
A eletrificação avança
No setor de mobilidade, a expansão dos veículos eletrificados também amplia a demanda por infraestrutura. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil registrou 223.912 veículos leves eletrificados vendidos em 2025, alta de 26% em relação ao ano anterior. Desse total, 181.542 eram modelos elétricos ou híbridos com recarga externa. Em maio de 2026, o país contava com 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga.
Infraestrutura precisa acompanhar a demanda
O crescimento da eletrificação, no entanto, depende da capacidade de levar energia aos locais onde ela será consumida. Wilson Morais, diretor de produtos e soluções de eletromobilidade e infraestrutura da ABB Eletrificação, destacou que a modernização de frotas urbanas exige planejamento da rede elétrica. “Não adianta lançar um projeto de transformar a frota da cidade inteira em ônibus elétricos se a gente não tem como levar energia a todas as garagens”, exemplificou.
São Paulo ilustra esse desafio. Em 30 de setembro de 2026, a capital atingiu 2.009 veículos de emissão zero no transporte coletivo, sendo 1.821 ônibus a bateria e 188 trólebus, segundo a Prefeitura. Apesar do avanço, o número permanece abaixo da meta de 2,6 mil veículos elétricos prevista para dezembro de 2024. A administração municipal também reconheceu dificuldades relacionadas à infraestrutura de recarga e à capacidade da rede de distribuição de energia, especialmente nas garagens, que impactam o ritmo de eletrificação da frota.
O cenário reforça que a modernização industrial e o avanço da mobilidade elétrica dependem de planejamento energético desde a concepção dos projetos. Sem considerar a capacidade de fornecimento e distribuição de energia, mesmo tecnologias disponíveis e projetos economicamente atrativos podem encontrar dificuldades para sair do papel.
Esses desafios estarão entre os temas da FIEE 2027, que acontece de 14 a 17 de setembro, no São Paulo Expo, e contará com a 2ª edição do Congresso FIEE.
